RESUMO: Este artigo se propõe a uma análise da literatura infantil-juvenil de Oranice Franco, incluindo as histórias publicadas em livros e as “Histórias do Tio Janjão”, coletânea de programas radiofônicos que foram ao ar pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro entre 1953 e 1955 e que fazem parte do acervo do escritor.
PALAVRAS-CHAVES: Literatura Infantil-juvenil; Estudos literários; Literariedade.
ABSTRACT: This article proposes an analysis of the children's literature of Oranice Franco, including stories published in books and "Uncle Janjão Stories", a collection of radio programs aired by Radio Nacional of Rio de Janeiro between 1953 and 1955 and that part of the collection of the witer.
KEYWORDS: Children's literature;
Literary studies; Literariness.
Há anos que a obra de Oranice Franco (1919-1999) faz parte de minhas pesquisas sobre literatura. Incluo, aqui, muito de sonhos e paixão que movem estes estudos, no sentido de dizer o que penso sobre a obra de Oranice Franco, de divulgar e de preservar, de fato, todo este patrimônio cultural que nos foi legado por ele.
Sonho e paixão. Como ressalta Harold Bloom, logo na abertura do livro Anatomia da influência: literatura como modo de vida (2013), no fragmento chamado de “Amor literário” em que diz:
A crítica literária, como tento praticá-la, é em primeiro lugar literária, ou seja, pessoal e apaixonada. (BLOOM, 2013, p. 16).
E conclui, em seguida, dizendo:
Para mim, a literatura não é meramente a melhor parte da vida: é ela mesma a forma da vida, que não possui nenhuma outra forma. (BLOOM, 2013, p. 16).
Desde que o acervo de Oranice Franco me foi apresentado em 2000 e me foi franqueada a pesquisa pelo seu curador, o poeta Eric Ponty (1964), logo após a morte de Oranice Franco em 2 de novembro de 1999, continuo a estudá-lo, incessantemente, na multiplicidade dos elementos que constituem todo seu patrimônio cultural.
Primeiro, tomando-o por objeto de estudo do Curso de Pós-graduação em Estudos Literários, em 2001, pela Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei, que originou a Monografia “Lagoa Mansa: uma escrita poliédrica na matriz genética do acervo de Oranice Franco”, sob a orientação da Professora Doutora Eliana da Conceição Tolentino.
Segundo, pela confirmação da obra de Oranice Franco como objeto da Dissertação de Mestrado, na Universidade Federal de Minas Gerais – “A produção literária de Oranice Franco: um estudo genético” (2004), sob a orientação da Professora Doutora Maria Zilda Ferreira Cury.
E, finalmente, quando, por convite de Oyama Ramalho e José Antônio de Ávila Sacramento, ambos os escritores membros efetivos da Academia de Letras de São João del-Rei, sou eleito, em 2008, para a Cadeira 40 dessa Academia, cujo patrono é Oranice Franco, em distinção aos estudos e pesquisas realizadas na obra de Oranice Franco. Apresentando, então, a defesa de patrono, conforme determina o Estatuto com a conferência – “Oranice Franco: a reinvenção de si na ficção da ficção de Lagoa Mansa (2009).
Acrescentam-se, ainda, diversos artigos publicados sobre projeto literário de Oranice Franco, que venho conhecendo paulatinamente, considerando que os estudos em fontes primárias, tendo como sustentação teórica a crítica genética, como ressalta Cecília Almeida Salles (2001), primam-se pelo provisório, seu caráter indelével em que se distingue o “emoldurar o transitório” (SALLES, 2001, p. 26)1
A cada elemento que descobrimos – e nem significa que ele estivesse, de fato, perdido –, resgatamos ou apenas se combina em meio a outros tantos que compõem o acervo, um novo ângulo se nos mostra. Um novo texto se nos revela. Lida-se, não com a obra, ou com uma obra propriamente dita, estática, concluída. Antes, com o processo de criação literária, fazendo-se constantemente nas malhas das peças que formam as unidades, sempre rizomáticas, em conexão com outros elementos do próprio acervo, com a história, com a literatura, com a memória cultural. Este é o desafio e a paixão maior dos acometidos pelo “mal de arquivo”, que Derrida (2001) diz se tratar de “uma possessão que leva incessantemente, interminavelmente o pesquisador à procura desses arquivos onde quer que eles se escondem” (DERRIDA, 2001, p.118).
Este artigo se propõe a uma análise inaugural do que, a princípio, vamos chamar de literatura infantil-juvenil de Oranice Franco. Trata-se de um dos elementos de sua produção literária que ainda não tinha sido abordada pelas pesquisas até aqui realizadas. Embora sempre tenha permanecido um questionamento – e as “Histórias do Tio Janjão” (1953-1955)? E os 17 títulos publicados de literatura infantil-juvenil?2 O que dizer desta produção?
Adriana Lisboa (1970), uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea me disse uma vez que um bom texto é o que nos provoca a escrever, a dizer, ou a qualquer manifestação que seja a partir do que se leu. Em meio aos meus questionamentos acerca desta produção de Oranice Franco, deparo-me com a Dissertação de Mestrado, em Ciência da Literatura/Poética, de Anna Claudia Ramos, defendida em 2005 na Universidade Federal do Rio de Janeiro e publicada em livro, em 2006, sob o título: “Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil”.
Um trabalho conciso, que contribui e avança as pesquisas no âmbito dos estudos literários, sob o ponto de vista, ou através da vertente da literatura infantil-juvenil, ainda repleta de preconceitos, e pouco estudo, considerando que só recentemente se tem constituído em objeto de pesquisas literárias. A grande contribuição do texto de Anna Claudia Ramos é no sentido de pôr em evidência e de estabelecer uma distinção entre literatura infantil-juvenil, aqui, ressalta-se, em absoluto, o caráter literário, a literariedade defendida por Anna Claudia Ramos (2006, p. 89) e uma literatura de caráter eminentemente, ou até exclusivamente pedagógico, com finalidade de passar sempre algum ensinamento, seja moral, religioso, cívico ou até mesmo literário. Privilegiando o aspecto da literariedade como traço que distingue o que é, de fato, literário, dessa literatura com finalidade editorial ou escolar. Mesmo reconhecendo que ocorrem estas duas vertentes de produção no âmbito do que comumente se chama de literatura infantil-juvenil.
A provocação que o texto de Anna Claudia Ramos impõe ou propõe é exatamente quanto à ilustração destas vertentes, quando usa um fragmento do livro “O peixinho arteiro” (1982), de Oranice Franco. Chama-me a atenção, à primeira vista, a citação de Oranice Franco, importante para mim, estudioso da obra deste escritor e a provocação, logo em seguida pela análise comparativa apresentada entre o texto de Oranice Franco:
- Vou correndo abraçar o papai e a mamãe e pedir desculpas pelo que fiz. E se você me convidar para fugir, brigo com você.
- Eu, convidar você para fugir?! – o Lambari riu, apesar de sentir muitas dores na sua boquinha.
- Nunca mais! Chega a lição que aprendemos. Se prestássemos atenção às aulas de Dona Piranha, saberíamos que nadar perto da Cachoeira é perigoso, por causa da correnteza das pedras...
- E saberíamos também – completa o Peixinho – o que é anzol e não teríamos sido fisgados. Agora vou para casa. Se você prometer ser bom peixinho continuarei sendo seu amigo. Do contrário, não.
- Pode ficar descansado. Nunca mais serei arteiro. Agora, vou também pedir perdão aos meus pais e amanhã cedo, se você acordar, iremos falar com Dona Piranha, contando tudo o que nos aconteceu.
- Boa idéia! – fez o Peixinho todo animado – Então até amanhã na escola.
- Até amanhã – disse o Lambari, nadando para sua casa.
E o peixinho nunca mais foi arteiro. Ao contrário, passou a ouvir e a seguir os conselhos de seus pais e, juntamente com o Lambari, foi exemplar no colégio. (FRANCO, apud, RAMOS, 2006, p. 89-90).
E um fragmento do livro “De olhos nas penas” (1984), de Ana Maria Machado:
- Sonhei com um Amigo, de olhos nas penas do mundo, que sabe descobrir mistérios do sangue na terra e guardas os segredos das garras dos homens.
A avó olhou espantada e ele continuou:
- Um Amigo que pode ser forte ou delicado, que sabe das horas de se esconder e ficar sozinho e das horas de fazer coisas junto com os outros, que se disfarça no meio da selva, que cada dia pode aparecer de um jeito diferente, quando a gente menos espera. Mas que sempre vou conhecer em qualquer lugar, mesmo que cada um chame de um nome diferente.
Parecia uma brincadeira de adivinhar, mas a avó não conseguia descobrir e perguntou:
- Como é que ele se chama mesmo?
Miguel sentou no colo da avó, passou os braços em volta do pescoço dela num carinho bom como abraço de Quivira e completou a brincadeira:
- Você chama de filho. Eu chamo de pai. (MACHADO, apud, RAMOS, 2006, p 90-91).
Anna Claudia Ramos cita ambos os fragmentos para exemplificar o que ela distingue, no âmbito da literatura infantil-juvenil, como o estritamente marcado pelo interesse editorial, mercadológico, pelo interesse escolar, pedagógico, onde o literário passa, ou melhor, fica longe e o texto literário em que a literariedade se sobrepõe. As conclusões a que Anna Claudia Ramos chega e diz, ela diz, a princípio, com relação aos livros “O peixinho arteiro” e “De olho nas penas”, não à literatura infantil-juvenil produzida por Oranice Franco e por Ana Maria Machado. No entanto, a distinção é de tal modo ampliadora, uma vez que se quer estabelecer uma distinção ou o fio condutor de uma distinção nítida entre um texto genuinamente literário e a literatura com finalidade escolar, pedagógica, editorial ou mercadológica, que acena para um aspecto mais abrangente da obra de ambos os escritores, para fora dos limites das páginas desta citação, sobretudo, para Oranice Franco, que passa a ser determinado, passa a ter a sua obra determinada por um autor e por uma autoria de textos ruins, de textos mal escritos, em que a “literariedade passa ao largo”:
Ainda existem pessoas que não acham que a LIJ é literatura, porque existem alguns autores que escrevem textos apenas com fins pedagógicos, querendo ensinar alguma coisa às crianças. Textos em que a literariedade passa ao largo [...] Será que na literatura adulta também não existem textos ruins? Mal escritos? (RAMOS, 2006, p. 89).
E, então, a partir dessa provocação retomo essa vertente da produção literária de Oranice Franco.
A crítica literária há que ser, acima de tudo, uma leitura ou um exercício de leitura em que se diz, pessoal e apaixonadamente, como ressalta Bloom (p. 16) o que se pensa sobre ela. Claro que nenhuma obra literária é um produto alheio a seu autor, ao tempo de sua produção, às correntes literárias e a outras do pensamento, como as correntes filosóficas, artísticas, políticas, culturais da época de sua produção, quanto das experiências de vida, de leitura, de observação de seu autor, de suas personagens. Como se vê, um território absolutamente múltiplo. Essa multiplicidade forma toda uma malha rizomática em permanente conexão.
Portanto, a crítica literária não deveria isolar essa pluralidade de vertentes envolvidas na produção de um texto em razão de uma única vertente, sob o risco de negligenciar outras características pertinentes à sua compreensão, à compreensão de sua própria historicidade.
Assim, torna-se imprescindível a leitura do núcleo que considero constituir a origem ou a matriz genética dos livros de literatura infantil-juvenil publicada por Oranice Franco que são as “Histórias do Tio Janjão” (1953-1955). Aliás, “O peixinho arteiro” (1982) traz no alto da capa do lado esquerdo, ao lado do nome do autor a referência explícita às Histórias do Tio Janjão.
O que são essas histórias? Trata-se de um conjunto de programas radiofônicos, escrito por Oranice Franco, que foi ao ar às quartas-feiras, em dois horários pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, entre os anos de 1953 e 1955. Todos estes programas, escritos por Oranice Franco, apresentados pelo locutor Cesar Ladeira, alguns por Paulo Gracindo, e, posteriormente, foram encadernadas por Oranice Franco e fazem parte de seu acervo. Uma fonte primária que ainda não foi objeto de estudo, e que certamente há de contribuir para as pesquisas contemporâneas sobre literatura, que hoje se fazem, também, a partir dos bastidores do próprio processo de criação que, normalmente, encontram-se nestes acervos pessoais ou públicos.
Oranice Franco nasceu em Lima Duarte, em 2 de novembro de 1919. Porém, cedo se muda com a família para São João del-Rei onde completa seus estudos, apaixona-se pela cidade e por seu patrimônio cultural. Jovem, com interesse pelo Jornalismo, vai para Belo Horizonte no final dos anos 30 e mais tarde para o Rio de Janeiro, onde ingressa na Rádio Nacional, permanecendo nesta emissora até sua aposentaria, quando retorna para são João del-Rei. Morre em sua residência, em 2 de novembro de 1999. Na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, teve o reconhecimento tanto de colegas de profissão, como Ghiaroni, Mário Brassini, Pedro Anísio, Mário Lago, Paulo Gracindo quanto de literatos, como Alceu de Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rosário Fusco, Fausto Cunha, Dantas Motas, Melo Cançado e Murilo Rubião, dentre outros, pela qualidade de seus textos, pela solidariedade que fazia parte de seu caráter, como por seu empenho na divulgação da leitura, da educação, direito de todos os cidadãos e fundamento da cidadania (LIMA, 2004).
A Rádio Nacional do Rio de Janeiro era ouvida em quase todo território nacional. O rádio vivia, ainda, a sua “era de ouro”, como ficou conhecida pelos críticos e pela própria história do rádio. E dentre seus objetivos, a contribuição, por meio de um projeto sério, desenvolvido por programas com ênfase estritamente na educação, na formação das crianças e jovens brasileiros, tornando-se num dos fatores de inúmeras programações da Rádio Nacional do Rio de Janeiro voltadas para a divulgação da leitura num país com fama de que nele não se lê.
“Histórias do Tio Janjão” trata-se, portanto, de uma série de programas ouvidos em todo território nacional entre os anos 1953 a 1955. Ou seja, um programa de rádio com duração de três anos ininterruptos sobre leitura, comportamentos sociais, cívicos, religiosos. O acervo de Oranice Franco reúne comprovante da recepção desta audiência. E, não apenas da audiência em si, mas, sobretudo da recepção destas histórias. Fazem parte deste acervo cartas enviadas à Rádio Nacional, endereçadas ao Tio Janjão, por ouvintes de toda parte do Brasil. Ouvintes constituídos de crianças e jovens estudantes de inúmeras escolas no país que tomavam seus textos como leituras escolares, pedagógicas, criando, inclusive Clube de Leituras em que o Tio Janjão se configurava como Patrono.
Jaquaruçú, 2º de setembro de 1954.
Meu querido Tio Janjão
Rádio Nacional.
Nós formamos uma biblioteca no 4º ano. Já contem alguns livros. Vamos inaugurá-la na “Semana das Crianças”. Como estamos sempre as suas historias pela Rádio Nacional, e gostamos muito, o escolhemos para o Patrono da nossa biblioteca. Esperamos que o senhor aceite e nos mande quanto antes a sua biografia e retrato, para o conhecermos.
Com o nosso abraço afirmo-lhe que quando ouço as suas historias tenho vontade de ir aí e dar-lhe um grande abraço.
Ana Maria Duarte
4º ano.
Escolas Reunidas de Jaguaraçú.
Minas Gerais3.
Escreviam comentando os programas, as histórias e para solicitar a presença do Tio Janjão ou sua biografia e foto para divulgação. Escreviam sobre a influência que as histórias representavam na vida e na experiência de leitor de cada um deles. Comentavam os ensinamentos que permeavam cada história. O Tio Janjão era mesmo um tio mais velho que se dedicava a contar histórias para os sobrinhos, preocupado, no entanto, com a formação destas crianças e jovens para que pudessem ser cidadãos melhores no futuro deste país continuadamente do futuro.
A escola era pensada como lugar privilegiado de aquisição do saber destes valores que eram distinguidos pela sociedade, numa prova de cultura, de conhecimento escolarizado, de comportamento social irrepreensível. A criança era concebida intelectualmente como um ser que deveria adquirir este patrimônio cultural pela educação, pela escola. A quem não se poderia negar o acesso à aprendizagem e à permanência nestes valores, que permeavam todos os elementos culturais: estudos, a leitura, a literatura, a ciência e a convivência diária.
Aliás, a literatura se constituía, ou melhor, foi constituída por um projeto pedagógico, num dos canais de veiculação, de comunicação, de acesso à aquisição destes valores. Daí o peso sobre a literatura infantil-juvenil desta época arraigada ao entendimento de que a literatura era o melhor meio de transmissão destes valores, pelo próprio encantamento que a leitura e que a arte literária continuam mantendo como uma de suas principais características. Embora a literatura aplicada neste contexto tenha a sua especificidade completamente comprometida pelos objetivos pedagógicos.
Deste ponto de vista, não há qualquer impertinência entre as “Histórias do Tio Janjão”, que originam “O peixinho arteiro” e a literatura infantil-juvenil. Ou melhor, uma corrente no interior da própria literatura infantil-juvenil, sendo que convive também com ela e vai ganhando destaque, à medida que o conceito de criança, de processo de aprendizagem da literatura e das artes passa por transformações. E, então, começca-se a privilegiar um texto, antes de tudo e acima de tudo por seu caráter literário, não mais por qualquer objetivo pedagógico, editorial ou escolar. Aí sim, como entende Marina Colasanti, citada por Anna Claudia Ramos:
Da literatura não fazem parte: o lugar-comum, a frase feita, a história previsível, a linguagem infantilizante, a função didático-moralizante (COLASANTI, apud RAMOS, 2006, p. 92).
“O peixinho arteiro”, cuja origem está nas “Histórias do Tio Janjão” (1953-1955), porém, publicado enquanto um título independente em 1982, quando o literário era essencialmente determinado pela literariedade e, portanto, a literatura infantil-juvenil que se trata de literatura, em que o apêndice – infantil-juvenil – como inúmeros outros pode e deve ser dispensado, não corresponde nesta época, nem ao projeto literário nem à concepção da especificidade deste leitor, absolutamente contrária ao pensamento do século XVIII em que, segundo Silva (2009):
As crianças não eram percebidas socialmente como seres diferentes dos adultos, compartilhavam o mesmo tipo de roupa, ambientes caseiros e sociais como também o trabalho. A partir do século XVIII é que a criança passa a ser conhecida como ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias (SILVA, 2009, p. 136).
O equívoco de “O peixinho arteiro” não é exatamente o seu texto, mas a sua publicação fora do tempo. Não que defenda uma literariedade para este livro que de fato carece do literário. Pelo contrário, acho que “O peixinho arteiro” naufraga neste rio ou nesse mar de “lugar-comum, frase feita, história previsível, linguagem infantilizante e função didático-moralizante”. Entretanto, não se pode a partir daí determinar o texto de Oranice Franco incapaz, desconhecedor da literariedade com produz sua literatura, em que mostra criatividade, tanto na poesia (LIMA, 2007, p 80-96) quanto na prosa (LIMA, 2011, p. 125-140). Certamente, aqui, Anna Claudia Ramos tem plena razão: há um projeto editorial arraigado ao pensamento pedagógico que já em 1980 devia estar erradicado do interesse e foco editorial das “Histórias do Tio Janjão” nos anos 50, com o sucesso de público e de crítica. O extrato da contracapa do LP (long play) com as narrativas das “Histórias do Tio Janjão”, lançado em 1955 diz que:
Histórias do Tio Janjão teve, recentemente, a unânime consagração das maiores expressões da inteligência brasileira não só de escritores e jornalistas, mas de mestre e professoras especializadas em educação e formação infantil, que recomendaram o programa como precioso auxiliar na educação e formação do caráter das crianças brasileira.
E então, pensa-se, em 1980, equivocadamente, que o autor que se destacara no cenário radiofônico e literário por outras publicações, que constituem a sua obra, por outros programas produzidos para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e, sobretudo, pela recepção à época das “Histórias do Tio Janjão” (1953-1955) pudesse repetir o mesmo sucesso com essas histórias, embora, elas não atentem mais para a especificidade literária que caracteriza a literatura infantil-juvenil em 1980 e até antes. Haja vista que esta concepção que privilegia o aspecto da literariedade, inaugurara-se há tempos na literatura brasileira, ainda que não plenamente apreendida pelo mercado editorial nem pelo processo pedagógico, no interior de que permanece vívida no âmbito da literatura infantil-juvenil.
Assim, “O peixinho arteiro”, “Histórias do Tio Janjão”, bem como todo este projeto editorial da Conquista retomam um texto eivado do pensamento nitidamente pedagógico, mercadológico, extemporâneo à literatura infantil-juvenil que domina o mercado editorial, a cena pedagógica contemporânea e, precipuamente, a literatura brasileira contemporânea. Um projeto que, mesmo em meio às transformações ocorridas no âmbito da concepção e da prática da literatura infantil-juvenil contemporânea, aposta equivocadamente num texto que, malgrado a sua permanência latente nos projetos pedagógicos até modernos, já devia estar completamente erradicado do mercado editorial e dos processos da moderna pedagogia. Mas ainda não estão:
Observa-se que a literatura infantil continua intimamente ligada à questão pedagógica e a escola a trata de forma a banalizar sua função literária e artística, o que interfere profundamente na mudança de concepções que a sociedade tem desse campo literário (SILVA, 2009, p. 141).
A pedagogia continua sem entender como a literatura pode e deve contribuir para o processo de formação de leitores, crianças, jovens ou adultos e, equivocadamente, faz dela um canal de veiculação, de comunicação de um processo de aprendizagem, caráter que marca nitidamente todas as ações pedagógicas. No entanto, ressalta Afrânio Coutinho (1978):
A Literatura é fenômeno estético. É uma arte, a arte da palavra. Não visa a informar, ensinar, doutrinar, pregar, documentar. Acidentalmente, secundariamente, ela pode fazer isso, pode conter história, filosofia, ciência, religião. O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc., porém, transformando esse material em estético (COUTINHO, apud, SILVA, p. 140).
Relendo as “Histórias do Tio Janjão” e todos os dezessete livros de literatura infantil-juvenil de Oranice Franco publicados pela Editora Conquista, entre os anos 1970 e 1999, o cenário que se mostra é exatamente este: um texto marcado pela concepção acentuadamente, senão exclusivista, de literatura como canal de veiculação e transmissão de ensinamentos de valores sociais, histórico-cívicos, religiosos, comportamentais, morais e até mesmo literário. Numa concepção de leitor – criança e jovem – como ser que caminha para a idade adulta e que, portanto, precisa adquirir o conhecimento, a prática dos valores que a sociedade determina seja distinguida por um processo pedagógico, no sentido de formar um bom cidadão. Não apenas a literariedade, mas a literatura em si continua, senão absolutamente inutilizadas, servindo ao que menos lhe interessa como literatura, que são a criatividade, a arte, o lúdico, a liberdade, as contradições, os conflitos da criança-jovem.
Dois livros, embora publicados pela mesma Editora Conquista, que também integram este mesmo projeto editorial destoam: “Leão violeiro”(1979), que teve uma edição com o nome de “João violino”(1979) e “O urubu cantor”(1989).
Ambos os livros apresentam a diferença como um aspecto positivo no âmbito da aquisição dos valores que supostamente devem constituir um cidadão. O que não se nota presente nem nos demais livros publicados nem nas “Histórias do Tio Janjão”.
No caso de “Leão violeiro” cujo título considero incompatível com a história, sendo mais adequado o título original “João violino”, posto que se narra a história do menino João, caçula de uma família de agricultores que toca insistentemente todos os dias enquanto sua família trabalha. Provoca irritação dos irmãos e até do pai, com relativo apoio da mãe que entende que ele deve continuar tocando, que aquela música faz bem, que aquela música pode mudar a vida deles um dia. Até que todos entendem isso. Não há nenhuma projeção social, nenhum ganho financeiro com a música nesta história. Apenas todos entendem e todos concebem a arte – a música – como um bem, um valor em si, sem seu atrelamento a outros valores, como por exemplo, o dinheiro, o apoio e a participação efetiva do artista nos afazeres domésticos e trabalhistas de sua família. É como se inaugurasse neste texto a concepção de arte que vale pelo prazer estético.
No caso de “O urubu cantor”, a música aparece novamente, porém, como um elemento secundário em função de uma atitude, de um ponto de vista inovador nos textos deste projeto arraigado ao princípio pedagógico, por privilegiar a especificidade de cada indivíduo como fundamento de seu caráter, de seu valor, absolutamente desatrelado da imposição de enquadramento ao que a sociedade exige como padronização de valores, costumes e cidadania. Narra-se a história de um urubu jovem que se apaixona por uma jovem urubu e tem outro pássaro – o azulão – como espécie de cupido que inventa que o urubu tem que cantar para conquistar a atenção e o amor daquela pela qual se apaixona. E o prepara, vamos dizer, pedagogicamente, para a representação social, performance. Todavia, o urubu falha, diante da pretendida com todo aquele aparato adquirido. E se surpreende quando sua paixão diz pra ele ser apenas ele – o urubu que era, sem querer ser, sem fingir ser o que nunca seria, no caso, cantor. Urubu não canta, mas encanta por suas próprias especificidades. Aqui também se pode até pensar numa espécie de crítica, ainda que velada, a este projeto pedagógico que envolve a literatura em seu afã de informar, ensinar, doutrinar em detrimento do que ele é por si: arte.
Um derradeiro detalhe: há uma zoomorfização exagerada e, por vezes, inadequada nestes textos das “Histórias do Tio Janjão” e nos títulos publicados. Os bichos, numa retomada das fábulas que inspiraram a literatura infantil nos seus primórdios no século XVII, com Fénelon (1651-1715), ou mesmo La Fontain (1621- 1695), sem acrescentar nada e fora do tempo, ocupam o lugar da fala das crianças e jovens. Porém, paradoxalmente numa linguagem infantilizante. Nota-se que dentre os dezessete títulos publicados, seis trazem um nome no diminutivo no título. Pior, não há, não se ouve a voz das crianças. A voz dos bichos que substituem a fala das crianças é, de fato, e tão somente a voz do adulto que sempre tende a transmitir algum ensinamento. Este é o aspecto que mais me incomoda especificamente nestes textos de Oranice Franco, neste projeto da Editora Conquista. E que o texto de Anna Claudia Ramos, com absoluta pertinência neste aspecto, destaca como um texto em que a literariedade passa a largo.
Ora, Deleuze (1925-1995) no capítulo “O que as crianças dizem”, de Crítica e clínica (1997, p. 73-79) ressalta a necessidade de ouvir as crianças, de ouvir o que as crianças dizem e “a criança não para de dizer o que faz, ou tenta fazer, explorar os meios, por trajetos dinâmicos, e traçar o mapa correspondente” (p.74). Ouvir sem a “intoxicação psicanalítica” (p.74), sem o afã de interpretar e, certamente, menos de falar no lugar dela, de lhe apagar a voz.
Ainda quanto à questão do apagamento da voz da criança, nota-se também o isolamento do texto que se pretende literatura, literário num pedagogismo, com ausência do diálogo, que se constitui nas vozes textuais que permeiam um texto literário:
o diálogo de qualquer texto literário se dá, em primeiro lugar, com outros textos e tendem a privilegiar o caráter educativo dos livros para crianças, sua dimensão pedagógica, a serviço de um ou outro projeto escolar e político (ZILBERMAN; LAJOLO, 2007, p. 10).
Por outro lado, o tempo necessário de convivência com a obra de Oranice Franco aliado à provocação das pesquisas de Anna Claudia Ramos conduz ao pensamento de que não se pode distinguir a obra de Oranice Franco pelo crivo do “texto ruim”, do “texto mal escrito”, nem mesmo no que diz respeito às “Histórias do Tio Janjão” nem aos livros publicados pela Editora Conquista e, muito menos, toda obra do escritor, por uma leitura que não aborda todo contexto histórico de sua produção, distribuição e veiculação original. O que também não permite uma crítica única e exclusivamente pessoal e apaixonada pela obra de Oranice Franco a ponto de não destacar nela aspectos impertinentes à compreensão da literatura enquanto arte, arte literária, e não com finalidades outras quaisquer que sejam, ainda ou, sobretudo pedagógicas.
Talvez pudesse dizer como Coelho (2000):
Por via de regra, a eventual opção do escritor em relação a uma dessas atitudes básicas (arte literária ou arte pedagógica) não depende exclusivamente de sua decisão pessoal, mas de tendências predominantes em sua época. Essa aparente dicotomia se coloco como problema para aqueles que têm a seu cargo a educação das crianças, ou para os que escrevem para elas exatamente em épocas em que a sociedade e a literatura estão em crise (COELHO, 2000, p.46).
Ou ainda como observa Caldin (2002):
As reformas educacionais têm continuado a priorizar o didatismo na literatura infantil e, praticamente a excluir o maravilhoso e o lúdico. Tão perto quanto na década de 70, observa-se que os livros didáticos ainda mantinham a concepção de que a leitura formasse a base do ensino e de que a leitura obrigatória na escola abria caminho para a leitura prazerosa e gratuita fora dela (CALDIN, 2002, p. 32).
É relevante que se diga, aqui, que estes títulos publicados pela Editora Conquista tiveram uma recepção de leitura e de crítica importante para a literatura infantil-juvenil, haja vista as ilustrações realizadas por ilustradores de reconhecimento como Macmiler Ferreira e Eliardo França, além de reconhecimento nacional e internacional, por exemplo, do livro, “Amazonas o rio mar” que em 1974 foi escolhido para representar o Brasil na Exposição da UNESCO, em Buenos Aires e na 12ª Feira Del Libro Per Ragazzi – Bologna, em 1975. Participações que distinguem o texto no âmbito da literatura internacional para criança e jovens.
O atrelamento da literatura infantil-juvenil a estes projetos de concepções pedagógicas, em detrimento de seu caráter artístico – que é a marca da especificidade literária – deve-se, sobretudo à concepção de seu leitor (a criança, o jovem) como um ser incapaz, incompleto, que necessita continuamente de ser iniciado na vida adulta. E por essa própria incompletude de sua formação humana, de decidir por si e definir seus conflitos, suas contradições e em razão da obrigação de adquirir estes domínios, segundo a visão do adulto, que continua constituindo este espaço como mera iniciação, permanece latente, por vezes mais visível do que latente, este lastro de um pedagogismo na literatura infantil-juvenil contemporânea.
REFERÊNCIAS:
BLOOM, Harold. Anatomia da influência: literatura como modo de vida. Tradução Ivo Korytowski e Renata Telles. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
CALDIN, Clarice Fortkamp. A leitura como função pedagógica: o literário na escola. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, v. 7, n. 1, p. 22-33, 2002. Disponível em . Acessado em 30. abr. 2014.
COELHO, Nelly Novaes. “Literatura infantil: arte literária ou pedagógica?” In: Literatura infantil: teoria, análise, didática. SP: Moderna, 2000. p.46-49. Disponível em . Acessado em 30. abr. 2014.
DELEUZE, Gilles. O que as crianças dizem. In: Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997, p.73-79.
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução Cláudia Morais Rego. São Paulo: Relume/Dumará, 2001.
LAJOLO, Marisa; ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira: história e histórias. 6 ed. São Paulo: Ática, 2007.
LIMA, Nilo da Silva. O processo de criação literária de Oranice Franco: um estudo genético. Programa de Pós-graduação em Estudos Literários. Dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura, 2004. Belo Horizonte. FALE/UFMG. 2004.
RAMOS, Anna Claudia. Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil. São Paulo: DCL, 2006.
SALLES, Cecilia Almeida. Gesto inacabado: processo e criação artística. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2004.
SILVA, Aline Luiz. Trajetória da literatura infantil: da origem histórica e do conceito mercadológico ao caráter pedagógico na atualidade. Revista Eletrônica de Graduação do UNIVEM. Marília (SP), v.2 n.2, jul/dez.2009, p 135-149. Disponível em . Acessado em 31. marc. 2014.
1 LIMA, Nilo da Silva. Oranice Franco: uma paixão por São João del-Rei. A Gazeta de São João del-Rei. São João del-Rei. Sábado, 24/nov./2001, p 4.
______. O acervo de Oranice Franco: um panorama. Vertentes. São João del-Rei, n.19, p. 39-45, 2001.
______. Lagoa Mansa: uma escrita poliédrica na matriz genética do acervo de Oranice Franco. São João del-Rei. Monografia: Especialização em Estudos Literários, Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei, 2001.
______. O processo de criação literária de Oranice Franco: um estudo genético. Dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura. Belo Horizonte. FALE/UFMG, 2004.
______. O acervo como rizoma. Em tese. Belo Horizonte. n. 9, p. 237-244, dez.2005.
______. Mar Lenheiro, um cais, uma Minas, o mundo: considerações sobre a poesia de Oranice Franco. Vertentes. São João del-Rei, Edição Especial, p. 80-96, 2006.
______. Oranice Franco: a reinvenção de si na ficção da ficção de Lagoa Mansa. São João del-Rei, 2009. Disponível em .
______. Capitu e Maria Oliva: linguagem e paixão segundo Machado de Assis e Oranice Franco. Revista da Academia de Letras de São João del-Rei. Ano V. n.5, p. 125-140, 2011.
______. A literatura e a vida. Versão Impressa, São João del-Rei, 2012.
2 FRANCO, Oranice. São Francisco Rio Rico. Rio de Janeiro: Conquista, 1971.
______. O menino que voa. Rio de Janeiro: Conquista, 1973.
______. O touro valentão. 4. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1973.
_____. A festa do grilo. Rio de Janeiro: Presença/MEC, 1977
______. Leão violeiro. Rio de Janeiro: Conquista, 1979.
______. Homenzinho verde. Rio de Janeiro: Conquista, 1980.
______. Niquinho. 3. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1980.
______. O peixinho arteiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1982.
______. Macaco Simão rifa um leão. 3. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1982
______. O urubu cantor. Rio de Janeiro: Conquista, 1983.
______. O coelhinho mágico. 5. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1983.
______. Cavalinho Alecrim. Rio de Janeiro: Conquista, 1984.
______. Amazonas o rio mar. 2. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1986.
______. O burrinho que ria. 6. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1986.
______. O cachorrinho de sangue azul. Rio de Janeiro: Conquista, 1987.
______. O pavão orgulhoso. 3. ed. Rio de Janeiro: Conquista, 1999.
______. A sapa sapeca. Rio de Janeiro: Conquista, s/d
______. Histórias do Tio Janjão. Encadernação. 1953-1955. Acervo de Oranice Franco
3 Opta-se, aqui, pela transcrição fiel da carta manuscrita em folha de caderno escolar por Ana Maria Duarte.
---------------
------------------------------------------------------------
---------------
------------------------------------------------------------
Nenhum comentário:
Postar um comentário