Ninguém pode dar a exata medida da devastação causada por um olhar feminino.
(Oranice Franco)
1 – Introdução
A verdadeira homenagem a qualquer artista é, sem dúvida, o estudo de sua obra; dedicar-se a ela e dizer o que realmente se pensa dela.
Capitu, sendo um ser de papel, que não existiu e continua a não existir (SANTIAGO, 2008, p. 83-84), foi criada “de modo a não se deixar agarrar como verdade para ninguém, seja personagem, leitor, crítico ou mesmo o autor, Capitu provoca, atrai, apaixona, irrita, enraivece e humilha, mas nunca se dá por inteira nem muito menos cede aos desejos ou à verdade dos outros” (SCHPREJER, 2008, p. 9). Desse modo, não interessa à grandeza do texto se Capitu teria ou não traído Bentinho, como na leitura comparativa empreendida ao texto machadiano pelo texto de Oranice Franco, não interessa se Maria Oliva teria ou não traído Licinho.
Certamente, que, hoje, não importa mais olhar o texto literário isolado em seu caráter estético, no sentido de um essencialismo ou de um mero culto à pureza; antes, sob o signo da transtextualidade (“tudo o que o põe em relação manifesta ou secreta com outros textos” (GENETTE, apud BERND, 1998, p. 41), no advento de um novo olhar, nitidamente, marcado pela heterogeneidade, polifonia, pelas múltiplas conexões, pela presença, explícita ou não, de um texto em outro.
Essa abordagem opta, pois, por um olhar oblíquo, que, no âmbito desses cruzamentos textuais, privilegia o texto em suas relações com outros textos, com o mundo, enfim, com a História. Ou seja, chegar-se-á, portanto, à leitura do texto de Machado de Assis pela vertente de um conto de Oranice Franco (1919-1999), especificamente pelo conto “Às de Ouro” que faz parte de Histórias de Lagoa de Mansa (1998), considerando, no entanto, que a versão original desse texto foi publicada em Estórias de Lagoa Mansa (1972), sob o título “Pôquer”.
Quer-se com essa estratégia por em evidência o reconhecimento e o estudo do texto machadiano pelo escritor Oranice Franco numa confissão, a meu ver, clara, da influência que Machado de Assis exerce na obra e na forma como permeia a escrita de Oranice Franco.
Machado de Assis – Joaquim Maria Machado de Assis – cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta, nasceu no Rio de janeiro 21 de junho de 1839 e morreu no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908. Filho de Francisco José de Assis, pintor de paredes e descendente de escravos alforriados, e de Maria Leopoldina Machado, uma portuguesa da ilha de São Miguel. Machado de Assis perdeu a mãe muito cedo, sendo criado por sua madastra, Maria Inês.
De origem humilde, começa trabalhando como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, cujo diretor era o romancista Manuel Antônio de Almeida. Em 1855, aos quinze anos, estréia na literatura, com a publicação do poema "Ela" na revista Marmota Fluminense. Continua colaborando intensamente nos jornais, como cronista, contista, poeta e crítico literário, tornando-se respeitado como intelectual antes mesmo de se firmar como grande romancista. Machado conquistou a admiração e a amizade do romancista José de Alencar, principal escritor da época.
Um dos principais escritores da língua portuguesa, e dos mais importantes da literatura, tendo produzido uma obra, em muitos aspectos, superior e inédita na produção literária contemporânea de sua escrita. O que mais tem dificultado a recepção internacional da obra de Machado de Assis é ter sido escrita em língua portuguesa com raríssimas traduções muito recentemente começam a tratar a sua produção literária com a importância que ela significa para a literatura brasileira.
O estudo recente de sua obra acena para sua relevância no cenário da História da Literatura, no sentido de que, nela, o homem apreendido na universalidade de tudo que o constitui, raramente teve uma abordagem tão ampla, múltipla e genuinamente humana.
Embora Alfredo Bosi (2007) ressalte que “entre nós, o reconhecimento do valor da ficção machadiana já se fez em vida do autor”, distinguindo os estudos realizados pelos principais críticos literários de seu tempo, Silvio Romero e José Veríssimo, na verdade, a partir de sua morte em 1908 é que, de fato, procedeu-se à abordagem crítica de sua obra. E, assim, afirmou-se a especificidade do texto machadiano no âmbito da literatura brasileira. Somando-se a estes esforços, as pesquisas realizadas pelo crítico inglês, John Gledson, e pela crítica norte-americana, Helen Caldwell, que inauguram o texto de Machado de Assis no espaço da crítica literária internacional. Destacam-se, também, traduções de alguns contos e posteriormente de livros de Machado de Assis para o inglês, despertando e ratificando, desse modo, interesse pela obra literária machadiana. Dentre esses leitores de Machado de Assis destaca-se Harold Bloom que inclui o escritor brasileiro aos seus estudos acerca da genialidade em 100 mentes brilhantes da literatura.
No livro Gênio: os 100 autores mais criativos da história da literatura (2003) Harold Bloom ressalta que “os escritores de gênio constituem o melhor caminho em direção à sabedoria, que é, creio eu, a verdadeira utilidade da literatura para a vida". E, referindo-se diretamente a Machado de Assis, diz:
Machado de Assis é uma espécie de malogro, mais uma demonstração da autonomia do gênio literário, quanto a fatores como o tempo, política e religião, e todo o tipo de contextualização que supostamente produz a determinação do talento humano.
Oranice Franco é mineiro, nascido em Lima Duarte, em 2 de novembro de 1919. Ainda na infância, sua família se mudou para São João del-Rei, daí, sua paixão pela cidade, por sua história, sua gente e sua cultura. O interesse pelo jornalismo o levou para Belo Horizonte no final da década de 30, atraído pela intensa vida intelectual. “Arrumei as malas e fui para Belo Horizonte. Na capital mineira me ajuntei a outros poetas e desandei”, confessa Oranice Franco em artigo de 1946, publicado no 2º Anuário do Rádio. Permanência rápida em Belo Horizonte, porque já em abril de 1940 tinha sido admitido na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, onde trabalhou até 1982, quando se aposentou e voltou para São João del-Rei, onde morreu em 2 de novembro de 1999.
Radialista, poeta, escritor, contista e intelectual importante, Oranice Franco produziu uma vasta obra, que inclui cinco livros de poesias: Minha rua de Minas (1949), Poço da memória (1952), Mares de Minas (1954), Gostamos do azul (1963) e Oranice’s. (LIMA, 2007, p. 80-81). Uma trilogia de contos, em que cria a cidade Lagoa Mansa, composta por: Lagoa Mansa (1972), Estórias de Lagoa Mansa (1981) e Tem peru na Lagoa (s/d). Em 1998, publica, em São João del-Rei, Histórias de Lagoa Mansa com 29 contos escolhidos, tomados e reescritos da trilogia. Publica ainda 17 títulos de literatura infanto-juvenil com reconhecimento na Feira de Frankfurt, Alemanha e em Bolonha, na Itália. Além de crônicas, radionovelas e uma intensa correspondência. Todos estes elementos compõem o acervo do escritor que foi objeto da Dissertação de Mestrado em Teoria da Literatura, defendida em 2004, na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais – o processo de criação literária de Oranice Franco: um estudo genético (LIMA, 2004).
Penso que Oranice Franco criou um projeto literário que pode ser lido como uma espécie de contramão do que Machado de Assis realizou em termos de criação literária.
Enquanto, o projeto literário de Machado de Assis trabalha sempre a questão dos universais que, de certa forma, pode ser lida no exercício da vida humana e chega ao particular de suas personagens que habitam quase sempre o Rio de Janeiro, que transita do século XIX para o século XX.
Oranice Franco, num projeto, aparentemente mais humilde, parte do âmbito do particular, dos homens de uma cidade imaginária – Lagoa Mansa – geográfica e culturalmente de pertencimento no território de Minas Gerais – para atingir, no caso específico do conto que será objeto desse estudo – “Às de Ouro” (1998, p. 132-137), os mesmos universais de Machado de Assis.
Não se trata, aqui, de uma reivindicação ingênua e despropositada de elevar Oranice Franco à importância de Machado de Assis. Menos ainda de tratar o texto machadiano levianamente, como se o pudesse esvaziá-lo de sua significação.
Por outro lado, não se propõe também à criação de qualquer tipo de redoma erguida em pedestal em que o texto machadiano seria preservado, intocável, inquestionável, até porque se assim se tivesse procedido, em qualquer tempo, jamais teria permanecido e chegado até nós. Jamais teria produzido o fascínio, o desafio e a sedução de que continua sendo capaz sobre leitores e estudiosos. Cabe destacar, aqui, Proust numa leitura de Alberto Schprejer que diz ser os melhores textos “aqueles que não terminam, ou seja, aqueles que continuam sendo lidos e gerando novas leituras pelo tempo afora” (SCHPREJER, 2008, p, 11).
Assim, insistir-se-á, aqui, nesse aspecto da ambiguidade do texto machadiano constantemente atualizado pela pluralidade de leituras que sua escrita, mais do que apenas permitir, suscita ininterruptamente.
Destarte, será tomado como via de acesso a essa leitura de Dom Casmurro o conto “Às de Ouro”, do livro Histórias de Lagoa Mansa (1998), de Oranice Franco, ressaltando como a pertinência literária do projeto Lagoa Mansa se inscreve na e reescreve a ambiguidade narrativa de Dom Casmurro.
2 – O território movediço dos textos
2.1 – Dom Casmurro – texto narrado em primeira pessoa (narrador personagem), caracterizando-se pela tentativa de reconstituição de um caso de amor vivido no passado por Bentinho (Bento Albuquerque Santiago) e Capitu (Capitolina Pádua) com o objetivo de “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (p.4).
O projeto de vida de Bentinho era simples: mesmo contrariando sua vontade – “Não posso [..] não gosto da vida de padre” (p.38) – cumprir a promessa de sua mãe (Dona Glória) “Mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda” (p.38) e ir para o seminário. O que se opunha radicalmente ao seu alumbramento pela vizinha – Capitu – que fora sempre uma espécie de sua irmã/namorada.
No período em que vive no seminário, Bentinho torna-se amigo íntimo de Escobar – “Você é a pessoa que mais me tem entrado no coração” (p.112) – que passa a ser amigo do casal Bentinho/Capitu, originando um estreito laço de amizade e confidência entre o amigo e Capitu.
Bentinho desenvolve um ciúme doentio por Capitu – “Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos” (p. 157) a ponto de incluir o amigo no rol das pessoas de quem sempre desconfia.
Não lhe bastasse a aparência fisionômica por ele lida entre Ezequiel, seu filho com Capitu, e Escobar, a cena do descontentamento enxuto de Capitu no velório de Escobar ratifica para ele a traição que teria sido cometida por Capitu e Escobar.
Depois da morte de Escobar, Bentinho vai para a Europa com Capitu e Ezequiel. Porém, volta para o Brasil deixando-os. Anos depois, Ezequiel vem visitar o pai e lhe conta sobre a morte de Capitu. Em pouco tempo, o filho morre também e Bentinho fica sozinho com a sua dúvida, que se torna o drama de sua vida. Muda-se para o Engenho e começa escrevê-lo numa tentativa, como diz, de atar passado e presente de sua própria história.
2.2 – Às de Ouro
– texto narrado em terceira pessoa, em que o narrador, aparentemente, não é personagem – caracteriza-se pela tentativa de explicação para o querer de Maria Oliva por Licinho, enquanto a cidade toda a deseja; posto que “inspirava paixão geral e avassaladora” (p.133).
O projeto de vida de Licinho – se é que se pode mesmo chamar este seu modus vivendi de projeto – é muito mais simples do que o de Bentinho, beira, inclusive ao simplório de uma vida inútil: viver integralmente para o jogo sem se preocupar inclusive com a maré de sorte, uma vez que desfruta herança do pai que lhe deixou casa e alguns bens a que se iam juntando os ganhos do jogo, sempre que a maré de sorte permitia, e o salário de professora de Maria Oliva.
Licinho, aparentemente não se preocupa a não ser com o jogo. Casado com Maria Oliva, a mulher mais desejada de Lagoa Mansa, além de professora, excelente dona de casa.
Mas a cidade toda tinha olhos em Maria Oliva. Ela “povoava o sonho de adolescente e adulto” (p.132). Numa obsessão pela duplicidade feminina capaz de reunir em si o melhor (toda sua dedicação de esmerada esposa e professora) e o pior (a associação entre o feminino e o mal, à sedução, ao pecado).
Uma manhã de domingo, quando chegava a casa depois de mais uma noite de jogatina Licinho, ao se recolher ao lado de Maria Oliva, toca o corpo dela e ouve a pergunta inauguradora de seu drama: “Licinho... De novo? Agorinha mesmo você teve comigo!” (FRANCO, 1998, p. 136). E é possuído por um ataque fulminante de ciúme, e sai de revólver em punho, gritando para a cidade inteira querendo saber quem tinha “comido o seu às de ouro”.
Mas nem Licinho nem Lagoa Mansa jamais ninguém soube o que realmente houve e se houve algum fato concreto envolvendo Maria Oliva e um suposto amante. Ou tudo não teria passado de um sonho de Maria Oliva, permeado pelo estado de ciúme de Licinho, o que implicaria o esvaziamento da ideia de adultério como peça fundamental do que se conta, em privilégio do como se conta – ou seja, o privilégio da construção narrativa propriamente dita sobre o que se conta. Certamente a genialidade de Machado de Assis está na capacidade geradora da ambiguidade de seu texto, que mantém a potencialidade sígnica do texto, o que ainda não foi de todo apreendido por Horold Bloom, mas que demonstra certa consistência na crítica literária brasileira.
2.3 – O fio que alinhava ambos os textos, pode-se dizer, seria, portanto, aqui, o da “ambiguidade insolúvel” que diz da triangulação propícia à consciência conturbada de Bentinho/Licinho que mesclam discursos e atos que hesitam entre objetividade e ressentimento. (LUCAS, 2002, p.99). Não se trata de um modelo em que a narrativa foi inserida nele, antes, impõe-se enquanto uma característica vital da própria narrativa que a recria e a multiplica como fundamento daquilo que se diz. Ou pelo menos como diz Rodrigues (2008, p. 62):
...a dívida que Bentinho formula sobre a traição de Capitu – [que é a mesma formulada contra Maria Oliva, no caso específico do conto de Oranice Franco] – é indício da possibilidade de que a mulher não tenha traído o marido e de que Escobar, o melhor amigo dele, não seja o pai de Ezequiel, [como pode ser que ninguém tenha estado em sua casa com Maria Oliva]
À medida que as narrativas ganham consistência, a ambiguidade se escreve tão pertinente a ponto de se estabelecer a impossibilidade e a inutilidade de saber, em ambos os textos, se houve ou não adultério por parte de Capitu ou de Maria Oliva, ainda que respostas possam ser dadas, inclusive, têm sido dadas. Porquanto o que interessa, de fato, nunca foi o adultério – certeza ou constructo imaginário –, mas exatamente a criação desse palco narrativo que mantém sempre em cena a dissimulação entre objetividade e o ressentimento que são mais da elaboração do texto do que propriamente dos olhos de Capitu ou de Maria Oliva.
Aliás, a própria relação que se estabelece entre o substantivo adultério, o verbo adulterar e o adjetivo adúltero pode ser concebida partícipe da mesma ambiguidade que sustenta ambos os textos. Há neles três planos distintos: o da constituição física de cada narrativa; o semântico, que diz de uma conetiva relação entre adultério, adulterar e adúltero, e o processo de criação, que trata do modo como se processa em ambos os textos esta narrativa múltipla em que o narrador, como diz Daniel Piza (2008, p.156) “não assume nada, tampouco é capaz de esconder tudo”.
Se, no primeiro plano, tem-se a constituição não apenas das personagens que compõem a triangulação que transitará desse aos demais planos, mas, sobretudo, a tentativa de dotar de visibilidade e legibilidade a relação ambígua que se estabelece entre elas: de um lado Bentinho, Capitu e Escobar, e do outro, Licinho, Maria Oliva e o amante incógnito de Lagoa Mansa.
O segundo plano, mostra-se como o território, cujas fronteiras semânticas são cada vez mais volúveis e ambíguas. O adultério que em ambos os textos pode ser que não passe de um sonho, de uma imaginação ou de uma invenção obsessiva – tudo fruto do desejo e da própria linguagem – implica, no entanto em infidelidade, falsificação e corrupção.
Adultério, que a mim me parece ser o vocábulo primitivo, significa (1) união carnal entre pessoas já unidas em matrimônio a outrem; (2) adulteração, falsificação. Da potencialidade desse gesto, o ato propriamente dito de cometer o adultério, que outra coisa não é senão adulterar cujo sentido remete, antes de tudo a (1) falsificação, contrafazer; (2) alterar, modificar (medicamento e texto); (3) corromper, e só então (4) cometer adultério; sendo que ainda admite em sua linhagem semântica (5) corromper-se, deturpar-se. Portanto, uma rede muito maior que não só amplia como torna mais ambígua a história semântica do adultério. E, por fim, uma vez havendo o ato, havendo a sua consumação, aquele que o pratica – o adúltero, que mantém uma cartografia semelhante ao verbo – (1) alterado; (2) corrompido; (3) falsificado, e só então (4) o que violou ou viola a fidelidade conjugal.
Desse modo, mesmo tendo permanecida a alusão à quebra do vínculo matrimonial na história semântica dos três vocábulos, observa-se um cuidado na constituição do adultério como um ato que, uma vez consumado, amplia-se, fugindo-se do âmbito estritamente do rompimento conjugal para se inscrever, dada a denotação social e pública, para o da corrupção, falsificação e deturpação.
E no terceiro plano – o do processo de criação – temos no espaço da literatura, da criação literária, tanto em Machado de Assis quanto em Oranice Franco, a encenação da própria ambiguidade encenada. Ou seja, quando o narrador, em Machado de Assis, diz “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” (p. 4), outra ação não pratica senão a adulteração – alteração, modificação e por que não, a falsificação da vida que foi desejada, que poderia ter sido, mas que não foi, embora possível de ser feita pela escrita. O narrador, conhecidamente, é um adulto que se lança ao poço da memória, à penumbra do tempo e, quando a visibilidade do que se passou não lhe permite exata legibilidade, envolve-a sob o olhar do presente que preenche as lacunas, os apagamentos e os esquecimentos com as rasuras que lhe estão às mãos, propícias à moldura nessa tentativa de urdir o passado.
Em Oranice Franco, o narrador, um adulto, também, mesmo não se propondo nenhuma urdidura do tempo – que, aliás, em Lagoa Mansa, como na sua vida, até parece não contar muito – cria um processo de adulteração textual. Ora, “Às de ouro” foi originalmente publicado em 1972 e sua escolha para compor os 29 contos do livro Histórias de Lagoa Mansa (1988), implicou numa cuidadosa operação de reescrita que sempre me parece corroborar ambiguidade para a narrativa. Reescrever se alinha, portanto, ao exercício renhido de alterar, de modificar o texto ainda em processo – rasura.
Philippe Willemart, em entrevista a Simone Ribeiro (2004) respondendo sobre o processo de criação dos escritores, diz que:
A rasura é o momento em que o escritor deixa a sua intenção primitiva de escrever e escuta. Escuta o quê? A tradição literária, cultural, uma música, a mulher dele passando na frente, qualquer coisa. Quando rasura, o escritor se deixa levar tanto pelos terceiros quanto pela linguagem, que é um fator importantíssimo na construção de uma obra (2004, p. 1).
Ao reescrever, sobretudo, o conto “Às de ouro”, Oranice Franco, em Histórias de Lagoa Mansa (1988), sem dúvida, comprova uma das características de seu estilo que é a busca insistente pelo enxugamento do texto e o zelo pela ambiguidade. O que, de certo modo, remete à tentativa de atar as pontas da narrativa, múltiplas e, por vezes, resistentes como a vida.
Além da universalidade do tema – o ciúme – que se constitui num dos elementos visíveis da abordagem de Dom Casmurro, o que me parece corroborar a sua atualidade e o fascínio que continua exercendo sobre leitores e críticos, e que foi profundamente apreendido por Oranice Franco na sua leitura de Machado de Assis é a capacidade que o texto demonstra na manutenção da insolubilidade daquilo que se diz e da forma como permanece dizendo.
Ou seja, é como se a cada leitura aos olhos fosse dado um novo ângulo da história que não apenas remete e cita, mas recria a perfeição, por sua vez e natureza, insolúvel de uma triangulação que até por definição rejeitaria um único lado como única base. Ou melhor, que ao possibilitar que todos os lados possam ser tomados por base – pois que mantêm sempre a conexão com todos os lados – cria a insolubilidade de uma leitura única dessa triangulação.
Nesse sentido, a fala exclamativa, possivelmente, silenciosa de Padre Henrique ao presenciar a cena de Licinho de revólver em punho na praça central de Lagoa Mansa e a cidade toda em alvoroço “Loura. Às de ouro. Triângulo isósceles...faz sentido” parece ter conseguido, de certo modo, atar, não as duas pontas temporais da história a que Bentinho se propôs ao escrever a adolescência na velhice, mas os três lados de um triângulo amoroso que até então era apenas uma suspeita. E que ele, dado certamente a outros recursos de que a sabedoria comum não podia dispor (o segredo da confissão de um dos envolvidos?), vê-se revelar à clara luz daquela manhã de domingo o segredo que a cidade mais queria entender. Embora permanecesse ainda a dúvida quanto a um dos lados iguais desse triângulo em desmanche.
E, mais do que essa personagem, ou mesmo ao fato de ninguém conseguir explicar o querer de Maria Oliva por Licinho, permaneceria também longe do consenso popular de Lagoa Mansa aquele sentido, aquele encaixe ao triângulo que só ao padre havia sido manifestado plenamente.
3 – A linhagem da dissimulação
Como em Dom Casmurro, o narrador dá voz a José Dias que descreve Capitu pela metáfora dos olhos que hesitam de “olhos de cigana oblíquos e dissimulados” (p.49) a “olhos de ressaca”(p.51), sem que se defina exatamente a cor; assim, em História de Lagoa Mansa (Às de ouro), o narrador que escreve e reescreve a história do estranho querer de Maria Oliva por Licinho hesita entre os “profundos olhos verdes” (versão de 1972) e “profundos olhos azuis, azuis” (versão de 1988). Na verdade, o que se tem é que, tanto na sociedade do Rio de Janeiro, do final do século XIX quanto em Lagoa Mansa – por si uma territorialidade heteronímia de Minas Gerais – no século XX, há, como ressalta Priore (2008, p. 37), um sistema de ritos que codifica a vida feminina e dissimula o corpo da mulher. De uma mulher que na metáfora dos olhos claros, indecisos entre o verde e o azul seduz o homem, a sociedade, os costumes, a moral, a própria linguagem ao delírio da hesitação, da ambiguidade, do desejo, do inefável, do indizível.
Desse modo o casamento de Bentinho com Capitu e o de Maria Oliva com Licinho reiteram a inexistência do amor-paixão, trocado por deveres, conveniências, fugas, que se inscrevem no âmbito das dissimulações do corpo feminino. Daqui a insistência em ambos os textos pela caracterização de uma virtude feminina que dissimula e dissipa nelas a condição de mulher, humana, sexualmente sedutora, capaz de abalar toda estrutura, todo sistema de ritos, o verdadeiro “diabo de saias” (p. 33), como a distingue Priore.
Modelo de beleza também o era de virtude. Jamais se viu Oliva demorar olhar um homem com outra intenção a não ser a de polidez. (1988, p. 133).
Ao contrário desse olhar, supostamente, recatado de Maria Oliva ergue-se o olhar incisivo de Capitu que, na contramão das mulheres de seu tempo, “não apenas olha Bentinho com amor, mas, sobretudo, usa o olhar como expressão para seduzir e confundir” (RODRIGUES, 2008, P. 62). Diz-se, supostamente, porque, de fato, Maria Oliva, que “inspirava paixão avassaladora” (1988, p. 133) ainda que não demore os olhos num homem, mesmo assim e, sobretudo, por essa razão, usa, como Capitu, o mesmo olhar para seduzir e confundir. Confundir exatamente de que não demora os olhos que seduz de sua dissimulada polidez. Tanto Capitu quanto Maria Oliva parece que, como diz Gledson (2008, p. 106), “nos convence da sua inocência [polidez] por causa de sua crença religiosa”. É, sobretudo, nesse sentido que Oranice Franco diz que tão dificilmente se pode ter a exata medida da devastação causada por um olhar feminino.
Enquanto em Machado de Assis, Bentinho é um jovem apaixonado, que posteriormente se torna casmurro e tenta “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência” numa narrativa de primeira pessoa, dissimulada de terceira, em Oranice Franco, o narrador é personagem, mais que da história, da própria cidade, e que se dissimula numa espécie de heteronímia – Oscrimar Fontoura – que assina o poemeto que celebra a volta de Maria Oliva à Lagoa Mansa, depois de uma breve ausência, que não está interessado em atar nenhum passado ao presente, senão acender dúvidas ao presente, numa narrativa de terceira pessoa dissimulada de primeira, e a contar com o estudo genético já empreendido de sua produção literária (LIMA, 2004), inclusive é tido como um dos apaixonados por Maria Oliva. Ou seja, a ambiguidade é uma estratégia de linguagem que se resolve de maneira distinta em ambos os textos.
Ao se ler “Às de ouro”, de Oranice Franco, tem-se a sensação, o tempo todo, da presença latente do texto de Dom Casmurro, de Machado de Assis ao dorso da linguagem. O texto de Oranice Franco pertence, portanto, à linhagem da dissimulação empreendida pela linguagem do texto machadiano. Um pertencimento que diminui a elaboração do estado de ambiguidade do texto de Oranice Franco, ao mesmo tempo, que manifesta a atualidade do que em Machado de Assis continua seduzindo, sem se deixar apanhar por completo ou por qualquer completude. Numa espécie de texto, linguagem ou mesmo Lagoa Mansa, ou no dizer de Lya Luft (2008, p. 78) “um paraíso onde pecar é permitido”. Pecar, dissimular, tornar ambíguo, essa materialidade feita apenas de papel. Ou que se dissimula apenas em papel?
4 – Conclusão
Podemos, dessa forma, concluir que o enigma principal em ambos os textos, Dom Casmurro, de Machado de Assis e “Às de ouro”, de Oranice Franco, não se constitui em saber, em resolver, em decifrar ou definir se Capitu traiu ou não traiu Bentinho com seu amigo Escobar, ou se Maria Oliva teria ou não traído Licinho com o amante incógnito de Lagoa Mansa. Antes, interessa o estado de contínua ambiguidade da linguagem que atualiza, sem chance de redução, tanto Machado de Assis quanto Oranice Franco.
A Literatura Comparada, dentre suas inúmeras contribuições aos estudos contemporâneos de literatura, permite a leitura continuada dos clássicos, também, pela vertente que se faz das margens para o centro, das chamadas literaturas menores para a literatura canonizada, para o cânone, possibilitando, assim, dentre os méritos da atualização do texto clássico, a divulgação e estudos dos textos contemporâneos, a própria reescrita da historiografia literária.
Desse modo, demonstra-se a eficácia, a relevância do estudo da produção literária de Oranice Franco no âmbito dos estudos contemporâneos de literatura.
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