terça-feira, 22 de setembro de 2015

O ESPAÇO TRANSTERRITORIAL DE LAGOA MANSA: UMA BREVE CARTOGRAFIA - Nilo da Silva Lima

1 – Introdução 
O objetivo deste artigo é pensar o espaço como categoria relacional. E, a partir dessa perspectiva, analisar a questão da legibilidade literária da cidade. Tomando como referência Lagoa Mansa, a cidade escrita de Oranice Franco (1919-1999). Lagoa Mansa, fundada pela trilogia narrativa de Oranice Franco, composta pelos livros: Lagoa Mansa (1972); Estórias de Lagoa Mansa (1981) e Tem peru na Lagoa (s/d), todos esses livros foram publicados pela editora Conquista, do Rio de Janeiro, apresenta uma cartografia, cuja proximidade com o conceito de rizoma desenvolvido por Deleuze e Guattari (DELEUZE; GUATTARI, 1983, p. 8), provoca esse exame de sua potencialidade no sentido de se pensar o espaço como relacional. Considerando, ainda, que Oranice Franco, numa das características de seu processo de criação, reescreveu 29 contos escolhidos dessa trilogia, publicando o livro Histórias de Lagoa Mansa (1988), que chamamos de um “quarto” livro da trilogia. Na ficção de Lagoa Mansa o que mais chama a atenção é que a cidade, nascida da conexão de uma multiplicidade transterritorial, de territórios em trânsito, impõe-se como que numa espécie de “rito de passagem” (VIRILIO, 1993, p. 8), onde a territorialidade, considerada sob os aspectos físicos, históricos e culturais se faz por uma relação de desterritorialização-reterritorialização. Os limites geográficos, históricos e culturais de Lagoa Mansa com sua vizinhança, Aiuruoca, Baependi, Lima Duarte e São João del-Rei, são continuamente deslocados. Como se à cidade não importasse o começo nem o fim, mas o meio, a relação contínua de deslocamentos constantes que permitem a leitura e a visibilidade de toda essa “territorialidade itinerante” (PERLONGHER, 1995, p. 93), que não é uma impertinência geográfica, como afirma Oscrimar Fontoura, um de seus poetas. Antes, o palco de dramatização de uma multiplicidade de territórios históricos e culturais, permeados continuamente por um jogo de aproximação e distanciamento. Onde o território cede lugar à territorialidade, porque supõe sempre as somas, as subtrações, a multiplicidade dos espaços dinâmicos, nunca absolutamente completos. Assim, procura-se, aqui, analisar o espaço como categoria relacional, considerando sempre o posicionamento estratégico de Lagoa Mansa na leitura de sua transterritorialidade. Aliás, o conceito de transterritorialidade como desenvolvido na análise da produção poética de Oranice Franco, implica três movimentos: Primeiro, o do olhar etnográfico que resulta no descentramento de uma visão de mundo arraigada aos limites territoriais e culturais; segundo, o da ideia de disseminação dessas fronteiras geográficas e culturais, no sentido de se atentar para as mudanças contínuas e a ausência de homogeneidade, percebendo-se, assim, que tanto o local quanto as identidades são da ordem do entre-lugar, da pluralidade, do reposicionamento, da revisão e da recriação; terceiro, o da noção de multiplicidade, que aponta a possibilidade de compreensão das geográficas territorial e cultural como um processo múltiplo que se define pelo fora, ou seja, o que importa não são exatamente os limites estritos do local nem do cultural, mas a cartografia das linhas de fuga dos territórios geográficos e culturais como formação desse espaço transterritorial (LIMA, 2007, P. 81). Portanto, proceder-se-á a um breve exame da cartografia literárias da cidade, destacando a necessidade de um “olho ubiguitário” (VIRILIO, 1993, p. 55), que possa lê-la na sua multiplicidade cultural, histórica e territorial. 2 – Espaço como categoria relacional Um dos grandes desafios propostos às investigações contemporâneas acerca das teorias das narrativas é pensar a questão do espaço como categoria relacional. O que, se por um lado, possibilita o diálogo, por outro, não dirime o choque originado pelo trânsito entre uma multiplicidade de sistemas teóricos. Há uma razão histórica como que legitimando a demanda desse modo especificamente contemporâneo de pensar o espaço: o desgaste da modernidade (BARBOSA, 2006). O estágio terminal de esgotamento das rupturas do final do século XIX e de todo século XX, tornadas tradição no fim do século XX em que a apresentam já esse desgaste. O esvaziamento da fé no novo. No percalço desse momento sob a tendência de pensar os fenômenos como movimento, privilegiam-se, então, dois aspectos imprescindíveis que são a transitividade e a multiplicidade. Transitividade, referindo-se não só aos deslocamentos territoriais, ao trânsito entre os lugares, criando a ideia de pertencimento territorial, mas também aos deslocamentos epistemológicos, descentralizando o saber, ao permitir que outras vozes e saberes sejam ouvidos (MARQUES, 2010, p. 28-37). Multiplicidade, referindo-se ao aspecto do agenciamento que, subtraindo a ideia do único, atenta-se para as dimensões que não podem crescer sem que se mude de natureza. Pode-se dize que o pensamento contemporâneo se encontra em meio a esse percurso que, talvez hoje lhe pareça mais delineado aos olhos e à compreensão. Reflexão e ação coexistem o tempo todo, de modo que não é possível esvaziar a reflexão da ação, privilegiando o pensamento como gênese que desencadeia uma série de atos desterritorializados. Nem o contrário, esvaziar a ação da reflexão, privilegiando a tomadas de posição em relação à reterritorialização dos espaços desterritorializados. A transitividade absoluta de velocidade (VIRILIO, 1993, p.78) entre os espaços é que cria a utopia de pensar o espaço, o lugar como viagem, como mediação entre desterritorialização e reterritorialização numa espécie de atopia. Assim, as fronteiras, não apenas geográficas, mas também epistemológicas, são deslocadas do ponto para o trajeto, ou seja, para a multiplicidade de pontos em movimento contínuo. Como o espaço de Reiman, na leitura de Deleuze e Guattari, compreendido como uma “coleção amorfa de porções justapostas que não estão atadas umas às outras” (DELEUZE; GUATTARI, 1994, p. 194). Como um agenciamento ininterrupto de territorialidade e desterritorialização. O espaço é pensado, portanto, da perspectiva de uma preferência do trajeto sobre a partida, tanto quanto sobre a chegada. Haja a vista o território epistemológico, criado a partir dessa tentativa de pensar o espaço como relacional, que inclui a filosofia, a antropologia, a geografia, o urbanismo, a história e a teoria da literatura. Um exame da cartografia literária de Lagoa Mansa aponta para a trama deste espaço relacional onde os territórios geográficos urbanos, históricos e literários são descritos pela metonímia de deslocamentos constantes das fronteiras entre Lagoa Mansa, Aiuruoca, Bapendi, Lima Duarte e São João del-Rei, como se o habitat estivesse subordinado ao percurso (DELEUZE; GUATTARI, 1994, p. 185). Na escritura de Lagoa Mansa duas linhas de destacam como referência à nossa tentativa de pensar o espaço como categoria relacional. A primeira, trata-se da página inaugural do livro Lagoa Mansa (1972) que, ao contrário do que sua leitura à primeira vista pode levar a entender, não é exatamente o texto de inauguração da cidade. A própria trilogia narrativa não se encerra, por assim dizer, numa delimitação tanto geográfica quanto histórica e cultural da cidade, mas lhe interessa a “territorialidade itinerante”, a transterritorialidade de Lagoa Mansa, como se tivesse partido do pressuposto de que ela já existisse quando da gênese narrativa que lhe dá origem física, histórica e cultural. Não obstante trate de uma tentativa de resposta ao questionamento pelo lugar, pela perspectiva territorial de Lagoa Mansa, como fator imprescindível à compreensão de sua ibiquidade. Martin Heidegger citado por Nestor Perlongher diz que: Localizar significa mostrar el lugar. Quiere decir, además, reparar en el lugar. Ambas asas, mostrar el lugar y reparar en el lugar, son los pasos preparatórios de una localización. Ya es mucha osadia que nos conformemos, en lo que sigue, com los pasos preparatórios. La localización termina, como corresponde a todo método, en ela interrogación qu pregunta por la ubicación del lugar (HEIDEGGER, apud PERLONGHER, 1995, p. 84). Desse modo, o texto Dados sobre Lagoa Mansa, isento da intenção de fixar ou de se referir a começos ou a conclusões, põe em evidência a ubiguidade territorial, histórica e cultural de Lagoa Mansa, segundo a relação estabelecida entre sua “territorialidade itinerante” e às demais localizações que, de certo modo, considerando aqui a articulação específica que a cidade mantém com São João del-Rei, vão delineando a própria territorialidade: Posição: Latitude Sul – 20º, 6’, 29” – Longitude do Meridiano no Rio de Janeiro – 7º, 5’ – Longitude W. Greenwich 43º, 15’, 39” Temperatura:17º Situação: ocupa as margens do Rio do Peixe e se espraia por todo o Vale do Segredo, até os contrafortes da Lilu, que tanto encantou Saint-Hilaire. Salubridade: a melhor do País (segundo os moradores). O Município se limita com as cidades de Aiuruoca, Baependi, Lima Duarte e São João del-Rei. Vias de comunicação: estrada-fazenda, com as porteiras do Adelgiso para abrir, e o trenzinho da Rede Mineira de Viação, duas vezes por semana. População da cidade: 8.525 habitantes, segundo Censo de 60. Distritos: São Tomé, Carrapicho, Quadrolhos, Orvalho e Vermelho. Principais atividades: leite, queijo e cachaça. Principal produto de importação: cachaça. Se por lado, localizar significa mostrar o lugar, e mais, reparar este lugar, nessa pequena página, Lagoa Mansa torna-se visível em termos territoriais, mas de uma territorialidade que é transterritorial, inscrita que se acha, primeiro, no âmbito do espaço geofísico do Estado de Minas Gerais, origem jamais esquecida pelo escritor, mesmo quando de seu “exílio” no Rio de Janeiro, onde permanece até que seja concluída a sua diáspora pessoal, tendo nesse período se exilado continuamente em Minas. Depois, no mundo, numa tentativa de marcar, pela desterritorialização, a reterritorialidade de Lagoa Mansa. E, finalmente, quando estabelece os limites municipais de Lagoa Mansa com Aiuruoca, Baependi, Limas Duarte e São João del-Rei, porque aí, não só ficam evidentes os deslocamentos territoriais entre esses municípios, cujo ponto se limita e deslimita com as porteiras do Adelgiso e com a passagem semanal do trenzinho, ambas as referências aludindo ao movimento de “trajetividade”, mas a territorialidade de Lagoa Mansa. Por outro lado, alude, também, a medir, e medir segundo Virilio (1993) “é deslocar, não somente deslocar para tomar as medidas, mas ainda deslocar o território em sua representação, sua redução geométrica ou cartográfica; deportar a realidade morfológica para uma conjugação geodésica que possui apenas um valor relativo e momentâneo” (p. 43). Num exame da cartografia de Lagoa Mansa, o que ressalta, o que importa é o movimento. O cruzamento de territórios, histórias, culturas, pois é nesse espaço de multiplicidade que a cidade se inventa enquanto escritura. A segunda, refere-se a uma citação que é dada à guisa de epígrafe no livro Tem peru na Lagoa e que Oranice Franco atribui ao poeta logaoense, Oscrimar Fontoura: “Lagoa Mansa não é uma impertinência geográfica” (FRANCO, s/d, p.4). Não somente não é, como só existe nessa transterritorialidade que se escreve tanto geográfica quanto histórico-cultural a cidade e todo município eu constitui Lagoa Mansa. Da obra de Oranice Franco se pode dizer tanto que a cidade Lagoa Mansa tanto cria quanto é criada pela narrativa. A propósito dessa hipótese, aludimos aos contos que compõem a trilogia, onde essa transterritorialidade é posta à vista, como nessa passagem do conto Professor Dilermando et caterva, do livro Estória de Lagoa Mansa (1981): Embora pertencesse a várias irmandades (com seu próprios cemitérios), Didi quis ser enterrado no Quicumbi, afastado do centro da cidade, destinado aos pobres, não católicos e suicidas (FRANCO, 1981, p.82). Aqui, num estudo comparativo da cartografia de Lagoa Mansa e São João del-Rei, os limites, as fronteiras geográficas são desconstruídos, ou melhor, transitam além da exatidão territorial, uma vez que o cemitério Quicumbi está, no plano do real, extra-narrativa, em São João del-Rei, exatamente como descreve o conto que o desloca para reterritorializá-lo em Lagoa Mansa. A escrita cria pertencimento desse espaço geográfico de São João del-Rei para Lagoa Mansa. O mesmo efeito ocorre também com relação a personagens de Lagoa Mansa, cujo pertencimento civil, histórico e cultural é de São João del-Rei, mas que transita para o espaço transterritorial de Lagoa Mansa. Como o caso, por exemplo, de Juanito, proprietário do bar El Bandonéon de Oro, em Lagoa Mansa, ressaltado na inventividade narrativa: ...o bom coração e o espírito inventivo de Juanito supriam a lacuna de informações: fechado o bar, ligava o seu velho aparelho para as emissoras da Capital e sintetizava as notícias mais importantes – uma, duas linhas no máximo – transcrevendo-as a giz no pequeno quadro-negro, a seguir dependurado à porta do estabelecimento. E o povo tomava conhecimento, com vivo interesse, de resultados de eleições, crimes, casamentos e partidas de futebol (FRANCO, 1972, p. 33). Ora, na São João del-Rei viveu João Lobosque Netto, fiscal fazendário, proprietário do bar Bife de Ouro, conhecido por Joanino, dono do jornal mural, pioneiro na imprensa de São João del-Rei, internacionalmente conhecido como Jornal do Poste, por sua forma pioneira de jornalismo, afixado em vários quadros e espalhados pela cidade em locais estrategicamente determinados, onde, segundo Vilela (1999): As pessoas se acotovelavam para ler as últimas notícias que eram conseguidas através de informantes, nas esquinas ou nas madrugadas, quando Lobosque ouvia as rádios da capital mineira (VILELA, 1999, p. 20). O jornal ainda existe e continua atraindo um número significativo de leitores em trânsito. Além de ter inspirado o surgimento e a proliferação desse tipo especificamente são-joanense de fazer jornalismo. O Jornal do Poste é objeto de estudo na Universidade Federal de São João del-Rei que se tornou a curadora de um acervo relevante de suas edições. Na dissertação, O processo de criação de Oranice Franco: um estudo genético (2004), apresento um estudo desse espaço relacional de Lagoa Mansa com os municípios que fazem vizinhança com a cidade, ressaltando, sobretudo, com fotografia de Joanino (João Lobosque Netto) na redação do Jornal do Poste a composição, não apenas do jornal em si, mas de Joanino, que corresponde exatamente à descrição de Juanito, feita no conto Perus, do livro Lagoa Mansa (1972): Foi o primeiro a usar costeletas, no tempo em que causavam escândalo. Cabelo preto, brilhantinado, partido ao meio. João Brasil, nome errado para quem é portenho de coração, canta tangos e é proprietário de “El Bandonéon de Oro”. O problema do nome foi facilmente resolvido: João virou Joãozito; Joãozito virou Juanito, com o j valendo r, o Brasil, poucas vezes usado, se tornou Brasill (FRANCO, 1972, p. 31) Em meio a essa transitividade territorial e histórico-cultural entre Lagoa Mansa e São João del-Rei há o semanário de Lagoa Mansa, O Porvir, que leva o mesmo nome de um semanário de São João del-Rei que, segundo Viegas (1953, p. 74) foi publicado no período de 1921 a 1925. Portanto, a narrativa fundadora da cidade de Lagoa Mansa alinhava, o tempo todo, em todos os seus elementos, este trânsito, não apenas do território geofísico, mas da história, da memória cultural e da literatura entre São João del-Rei, Aiuruoca, Lima Duarte e Baependi. Quanto a Aiuruoca e Lima Duarte essa transterritorialidade se apresenta menos nítida, ou seja, menos visível à flor da página. Porém, igualmente fundamentais. Lima Duarte por ser a terra natal de Oranice Franco, onde se encontra não a raiz, da gênese fixa do nascimento do escritor, mas de onde se move e por se move uma multiplicidade de municípios numa contínua rede de conexão geográfica, histórica e cultural. Há espaço como o Rio do Peixe, a lenda regional limaduartina de “a cruz da moça” a Serra da Paula. E Aiuruoca, ainda no estágio das pesquisas, por uma afinidade intelectual e de amizade que liga Oranice Franco ao médico e escritor Dr. Júlio Sanderson, Julinho, e ao poeta Dantas Motta, ambos, moradores e pertencentes à alta sociedade de Lagoa Mansa, espécie de críticos da obra de Oranice Franco. O acervo de Oranice Franco mantém uma significativa correspondência literária entre os três em que se trata criticamente, não apenas personagens, mas o próprio processo de criação literária. Esse rede de conexões textuais é um dos aspectos que justificam os estudos continuados do acervo de Oranice Franco. Como patrimônio que deve ser preservado, estudado e cujo acesso vem sendo democratizado, no sentido de incluir a produção de Oranice Franco no bojo das discussões contemporâneas de literatura, história, memória cultural e da própria historiografia literária.

 2.1 – Rizoma: 

uma metáfora da multiplicidade Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. O rizoma é uma aliança. Uma espécie de anulação do fim e do começo e um privilégio do meio, do mover-se entre as coisas. O meio é onde as coisas adquirem velocidade (DELEUE; GUATTARI, 1995, p. 37). Retomando-se o fragmento que inaugura o livro Lagoa Mansa (1972), que se pode dizer que é dado à guisa de fundação da cidade de Lagoa Mansa, observa-se que a narrativa não privilegia nenhum ponto de inauguração da cidade, como não se refere também a qualquer indício de fim. Portanto, a narrativa de Lagoa Mansa privilegia o espaço como uma categoria sempre em relação de territorialidade, por meio de um processo contínuo de reterritorialização. Observados os princípios fundamentais da conexão, heterogeneidade e multiplicidade (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 16). Os contos criam sempre esse estado de “trajetividade” em que se inscrevem personagens, fatos históricos, culturais, instituições. Escritura, constituindo uma rede de conexões de “inter-ser”. Daí a possibilidade de ler Lagoa Mansa como uma narrativa que dramatiza o tempo todo o espaço como categoria relacional, como lugar de interseções, mais do que uma simples metáfora da multiplicidade. Como um espaço em que, de fato, esse território múltiplo se forma, impõe-se como um real pertencimento geográfico. A multiplicidade tornada substantivo (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.16). Também sob esta perspectiva, o estudo do acervo do escritor se mostra relevante, ao somar a informação de que Oranice Franco, ainda na juventude, deixa São João del-Rei e transita pela Belo Horizonte dos anos 40, trabalhando ao lado de Murilo Rubião, em jornais como A Folha de Minas e A Mensagem, até se instalar, definitivamente, no Rio de Janeiro, onde colabora em vários jornais e revistas, profissionalizando-se como radialista na Rádio Nacional do Rio de Janeiro ainda nessa década de 40. A diáspora pessoal de Oranice Franco que vai de 1940, quando chega definitivamente ao Rio de Janeiro até 1982, quando, aposentado na Rádio Nacional, volta a São João del-Rei, faz dele um intelectual, cuja vida e produção literária percorrem um dos principais trajetórias históricas do pais. É nesse período que o Brasil se torna uma nação democrática, forte, de reconhecimento tanto para o seu povo quanto internacionalmente, após a travessia árdua por todos os anos de ditadura militar que cerceia toda produção artística, todo pensamento, da própria liberdade de se fazer nação independente. Oranice Franco enfrenta problemas desse período com denúncias de vários amigos e companheiros de trabalho dentro da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, como Mário Lago, Ghiaroni, Dias Gomes, Paula Gracindo, entre outros, que além de demitidos, sofreram inquéritos policiais e perseguições políticas. O que lhe valeu igual investigação por se solidarizar com os cerceamentos desse momento. No entoa, essa espécie de diáspora vivida por Oranice Franco leva-o a desenvolver uma narrativa que procura, em meio ao “exílio” transitar por um território, cujo pertencimento só é possível como espaço desconstrutor das fronteiras exatas, intocávies, de pertinência geográfica. Assim, a cartografia de Lagoa Mansa, sua cidade escrita reitera o rizoma como agenciamento de multiterritorialidade.

 3 – A cartografia de Lagoa Mansa: 

legibilidade O mapa contribui para a conexão dos campos [...] O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido, adaptar-se a montagem de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-la como obra de arte, construí-lo como ação política ou como uma meditação – princípio da cartografia (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 20). No exame da cartografia literária de Lagoa Mansa, quer-se pensá-la a partir do princípio propriamente dito da cartografia. Um dos aspectos fundamentais dessa abordagem é a transitividade, a conexão de uma rede de dimensões de uma territorialidade tanto geográfica quanto histórico-cultural que Lagoa Mansa significa na construção da cidade imaginária e no processo de criação de Oranice Franco. Considerando a multiplicidade de conexão territorial entre Lagoa Mansa e São João del-Rei, que, dentre os demais municípios limites, é o apresenta uma consistência mais legível na narrativa da trilogia, observa-se que um mapa dessa cidade põe em vidência, primeiro, a pertinência geográfica da cidade, não apenas defendida, mas, sobretudo, estrategicamente fundada à guisa do rizoma numa transitividade. “O rizoma tem como tecido a conjugação” (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p.20). Daí a conjugação do município de Lagoa Mansa com os seus limites, destacando que pela cidade cruzam o território, a história, a cultura de outras cidades, de outros paises, ao mesmo tempo em que o território, a história e a cultura lagoense permeiam a memória de todos esses lugares. Portanto, a escritura de Lagoa Mansa se oferece como uma referência nessa investigação da legibilidade da cidade contemporânea como “limite urbano que origina uma infinidade de abertura e rupturas” (VIRILIO, 1993, p,13), ou uma “cidade sem portas” (VIRILIO, 1993, p. 15). Nesta perspectiva, destaca-se o conto Meciê, o Alamão, do livro Lagoa Mansa (1972) que narra a história de um francês que compra a fazenda Cruz das Almas, em Lagoa Mansa, e não volta mais para a França. Alamão é tomado como uma metonímia da transterritorialidade, uma vê que a França se inscreve tanto na malha cultural quanto na territorialidade de Lagoa Mansa, quando a cada 14 de julho, a Fazenda Cru das Almas se torna território francês com Allons, enfants de la patrie/lê jour de gloire est arrivé, cumprimentos do Padre Cavadini, um italiano que diz ao Alamão: “Roma cumprimenta Paris pelo dia de hoje” (FRANCO, 1972, p. 18). Assim também o bar El Bandonéon de Oro, em Lagoa Mansa, povoado pelo tango de Gardel, espaço em que a música tradicional da Argentina convive com os sons de copos de um barzinho de cidade interiorana, violino, violoncelo, música italiana e modas da região. O exercício peculiar do jornalismo feito por Juanito, trazendo, através de um quadro-negro, afixado na parede do lado de fora do bar, as notícias em fatos corriqueiros figuram junto de notícias da Capital, do país e do mundo, o que, nessa leitura, é a manifestação evidente da ansiedade contemporânea pelos deslocamentos das distâncias, num afã pela ubiguidade territorial, histórica e cultural dos espaços numa adesão antecipada do que seria característica da narrativa contemporânea. Numa espécie de prefácio do livro Estórias de Lagoa Mansa (1981), o autor num panorama dos atualizado da cidade Lagoa Mansa atualizada (p. 11-15) noticiando os óbitos insere entre as personagens Motta, que é uma referência direta ao poeta Dantas Motta, seu amigo que sempre morou e mora para sempre em Aiuruoca, cuja morte se deu em fevereiro de 1974, portanto, já sete anos passados. Encerrando essa série de transterritorialidade, a história do Maestro Vicente, que se trata, na verdade, do Maestro Vicente Vale, músico, residente em São João del-Rei (vila próxima daqui) e que a narrativa transita para o território de Lagoa Mansa, como ele tivesse-se mudado para Lagoa Mansa e ali prosperado. Há um trecho em que a narrativa explicita o apagamento da fronteiras territoriais entre Lagoa Mansa e São João del-Rei: Vicente abriu as três janelas do quarto. Os telhados coloniais se revelaram todos pelo luar; lá, a igreja de São Francisco era puro cartão-postal; mais perto, a Ponte da Cadeia, curvada sobre o Lenheiro como a lhe ouvir as mágoas. Um gato, preto, iniciou a serenata logo interrompida por latido encorpado: vem-vê-vovô-vem (FRANCO, 1981, p. 73). Não se distingue, aqui, como estratégia do próprio processo de criação que certamente cria desse efeito uma delimitação entre as duas territorialidades, espaço em contínua construção, em contínuo trânsito. Ou seja, há uma aliança rizomática, localizada menos sobre um ponto de fuga do que sobre a fuga simultânea de todos os pontos (VIRILIO, 1993, p. 22), inscrevendo um movimento oblíquo entre os territórios. Analisada sob este ponto de vista, Lagoa Mansa se apresenta como uma cidade, cuja legibilidade é possível a partir de um “olho ubiguitário”, capaz de ver tudo ao mesmo tempo (VIRILIO, 1993. p, 55). Capaz de perceber esta pluralidade territorial entre Lagoa Mansa e os demais territórios, numa alusão mais visível a São João del-Rei. A urbanidade de Lagoa Mansa prima-se, portanto, pela tentativa de desconstrução das axialidades, propriamente urbanas, ou pela inclusão delas no espaço de continuada relação, onde a velocidade entre as distâncias de desterritorialização e reterritorialização também as deslocaria pelo agenciamento que é um movimento que supõe sempre multiplicidade de dimensões. 

 4 – Conclusão

Ao término deste breve exame da cartografia literária de Lagoa Mansa, uma das conclusões é que os deslocamento ocorridos, não apenas do ponto de vista da territorialidade geofísica, mas da própria descentralização dos saberes das diversas áreas da epistemologia contemporânea, como que impõem a necessidade de se pensar a noção de espaço. Não mais sob a visão de que seu conceito determinaria, com certa exatidão – que á dúbia – apenas destes ou daqueles corpos neste e naquele lugar. Mas a partir de uma multiplicidade de espaços que conviveria com outra multiplicidade se sujeitos, territórios, história, culturas, que não se pode conceber, senão na sua multiplicidade Caem, portanto, as centralidades, as axialidades. A territorialidade é preferida ao território. A legibilidade de Lagoa Mansa, como das cidades contemporâneas, exige a compreensão deste gesto do “olho ubiguitário” a que se refere Virilio (1993), como demanda de uma visibilidade, cujo ângulo cada vez mais é multi-ângulo. 

5 – Referência bibliográfica

BARBOSA, João Alexandre. As ilusões da modernidade. São Paulo: Perspectiva, 2006. COMPAGNON, Antonie. Cinco paradoxos da modernidade. Tradução Cleonice P.B. Mourão, Consuelo F. Santiago, Eunice D. Galéry. Belo Horizonte: UFMG, 1996. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Tradução Aurélio Guerra Neto, Cecília Pinto Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. FRANCO, Oranice. Lagoa Mansa. Rio de Janeiro: Conquista, 1972. ______. Estórias de Lagoa Mansa. Rio de Janeiro: Conquista, 1981. ______. Tem peru na lagoa. Rio de Janeiro: Conquista, s/d. LIMA, Nilo da Silva. O processo de criação de Oranice Franco: um estudo genético. 2004. Dissertação – Programa de Pós-graduação em Letras – Teoria da Literatura, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2004. LYOTARD, Jean-François. Moralidades modernas. Campinas: Papirus, 1996. MARQUES, Reinaldo. Acervos literários e imaginação histórica: o trânsito entre os saberes. In. Ipotesi: revista de estudos literários – UFJF. Juiz de Fora. v.4, n.2, jul/dez. 2010, p. 28-37. PERLONGHER, Nestor. Territórios marginais. In. Na sombra da cidade. (Org.) Maria Cristina Rios Magalhães, São Paulo: Escuta, 1995. VILELA, Sirley Trindade. Jornal do Poste: resgate da memória cultural são-joanense. In. Anais do IV Congresso de Ciências Humanas, Letras, Artes das Universidades Federais de Minas Gerais. CD-Rom. Viçosa, 1999. VIRILIO, Paul. Espaço crítico. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. WOLF, Jorge. Esquecer a cidade. In. Suplemento Literário. Belo Horizonte, n.58, abr., 2000.

Um comentário:

  1. Eric, vc tem razão, a modificação estrutural do texto confunde um pouco, mas é possível ler. O primeiro texto ficou numa boa disposição. Abraço.

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